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sábado, 4 de abril de 2015

RAINHA DO BAILE


Sem vestido especial para a ocasião
Sem sapatos novos para exibir
Sem música, sem par, sem salão
Ninguém pra segurar sua mão

O vento na janela anuncia tanta tristeza
E a melancolia já tomou sua parte na cama
Alguém lá fora está radiante
Alguém lá fora esbanja beleza

Meu amor, minha doce criança
Alvo dos meus sonhos mais estranhos
Das minhas mais absolutas certezas
Esta noite eu sou teu príncipe

Meu convite é raro e irrecusável
Dê-me a honra desta dança
E seja comigo uma só no tempo, memorável
Nos passos que eu lhe conduzir
Pois amanhã, ao raiar das primeiras horas
Este príncipe não terá ido embora

A força dessas palavras carrega tufões
Descobre sorrisos ocultos no teu olhar
E celebra, depois da festa, ao ritmo do mar
Basta ouvir, enfim, quando eu te chamo:
Rainha do baile, graciosa e esmerada
Eu te amo

sábado, 28 de março de 2015

O CÉU DE ANTEONTEM



Sabe o que me enche de sede na vida?
Olhar as palmeiras que dançam
Com seus ramos apontando pro céu

As crianças que saboreiam cada segundo
De uma brincadeira inocente
E se ajuntam ao redor de uma fogueira

Sob o firmamento rajado de nuvens
E de um horizonte âmbar
Projetei um sonho:
Que todo dia seja como o céu que vi antes de ontem
Que passou baixinho, rasteiro, cativante
Como uma revoada selvagem

Sabe o que me enche de lágrimas na vida?
O pão do pobre molhado de suor
Do qual nasce um sorriso de vitória

Os músicos orquestrados que nos lançam
Em teias mágicas por horas
E nos deliciam com canções de redenção

Sobre a relva úmida de água da chuva
Cantarei a natureza e o esplendor
Que o Senhor dos meus caminhos me mostrou
Eis diante de todos os povos:
O alarido que cura o enfermo
E quebra muralhas de Jeri(-có-)rações

Eu me rendo!
Eu me rendo!
Eu me rendo!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

SÉRIE "Poemas de circo": CARO SR. PALHAÇO




Sob aquelas vestes efusivas
De cores gritantes que atraem os olhos
Tão dócil e inocente criatura
Quem lhe poderá –de fato- recompensar?

Entre uma e outra pirueta
Entre piadas mais velhas que o mundo
Aquela é sua verdadeira missão
Dinheiro algum lhe poderá recompensar

Os risos e a satisfação do público
Engolem o furacão de pedras em sua alma
Aquela alma que não usa pancake
Aquele nariz que não cobre seus males

Caro Senhor Palhaço, alegre e desastrado
Homem de fé na própria existência
Essa luta todo dia a gente enfrenta
Mas fazendo troça dela, só para os fortes

terça-feira, 2 de abril de 2013

SÉRIE "Poemas de circo": MALABARISTAS



Aperta o passo aí, que eu quero ver
Arreda pra lá, afasta, sai!!
O espetáculo que vai começar:
Que benção, meu Deus, que lindeza!!
Coisa linda demais, nem sei
Nem sei, nem sei...
Olha como ele é habilidoso
Olha como faz os seus truques!
Olha, gente, olha!
Nem dá pra mim isso aí...
Quisera eu, outrora nessa vida,
Mas já sou malabarista
Dessas duras penas
Que nem se há de contar
Porque não valem a pena lembrar
Então eu fico aqui, nem pisco
Lá vão e lá vem os malabares
Vou chorar na minha estupidez
Me segura, mulher, me segura... E me abraça!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ORAÇÃO DO EU



Que eu seja uma voz de esperança, em vez de medo
Que eu possa vestir a roupa da verdade, em vez de um disfarce
Que eu saiba dar a outra face, em vez de mostrar os dentes
Que eu entenda um pouco de arte, em vez de amordaçá-la

Que eu tenha o dom de escutar mais, em vez de tentar calar
Que eu possa reconhecer outras belezas, em vez do meu próprio espelho
Que eu consiga ser menos ranzinza, em vez de brigar com o mundo
Que eu creia mais em Deus, em vez de despejá-lo à toa pelos lábios

Que eu seja capaz de ajudar a subir, em vez de chutar para cair
Que eu guarde minha boca do mal, em vez de jorrá-lo como ouro pela saliva
Que eu seja pacífico, em vez de estimular a vingança e a violência
Que eu ame sem salário, em vez de impor o valor da recompensa

Que eu pare de reclamar da sorte, em vez de birrar como criança mimada
Que eu esqueça dos pecados passados, em vez de trazê-los da tumba
Que eu ore e agradeça por tudo, em vez de pensar só no que me falta
Que eu abrace com braços de afago, em vez de dar abraços gelados

Que eu tenha a ignorância de uma criança, em vez da sabedoria maligna de adulto
Que eu louve e cante para um Deus real, em vez de um deus efêmero
Que eu limpe meu coração dos rancores, em vez de regá-los com água do ódio
Que eu chore nos colos do Pai, em vez de engolir pílulas de depressão

Que eu sirva com boa vontade, em vez de cobrar qualquer palavra dita
Que eu me desvie das sombras estranhas da noite, em vez de namorá-las
Enfim, que um dia possa eu, em minhas quimeras
Chegar a um mínimo de minha humilde oração, quem dera!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A VOZ DA DEPRESSÃO SOB A TEMPESTADE


Acordei num quarto sombrio, banhado de lágrimas
Lugar tão frio, pior que o vale das sombras
Desespero e arrepio perpassavam meu corpo gélido
Este, a saber, não era menos que meu universo trevoso

Acordado, porém, notei que era um sonho
Ou melhor, um quase-dormir, um estágio intermediário
Em que demônios tentavam assaltar-me a sanidade
E clamei a Deus, em pleno choque 

Andava eu por uma rua sem brilho, meus pés sobre barro
O cheiro da morte era intenso e pútrido, intoxicava
Minhas vestes rasgadas e sujas, eu quase um mulambo
Como posso ousar ser amado por tão grandioso Ser?

Penso o quanto poderias ter sido altamente depressivo
Pois razões tiveste, em meio a traíras e aproveitadores
Mas ouviste a voz do Pai sob a caudalosa tempestade
Assim também quero eu, Senhor, imitar-te

Acendo a luz do quarto e faço preces no chão cinzento
Oro em prantos, buscando alento, mais do que isso eu tento
Não ser danificado pelas minhas agruras e meus desvarios
Entontecido pela voz cavernosa e gutural desse mal, não mais