No dentro de mim Remexe-se um sonhador E chora um poeta Um duro pranto Olho para meu íntimo Em minhas entranhas Sensações tão amargas Comichões estranhas Presa está em mim A dor abissal dos crentes Os que já não pisam mais A cabeça da serpente Gemidos de uma alma Bramidos de um coração Flameja, almeja, volta a gemer no cativeiro de José Nesses tempos de um distante Jesus De um esquecido alvo certo No dentro de mim deserto Transveste-se em anjo de luz Choro lágrimas de gosto cruel Velando esperanças que vagueiam Família de certezas feridas E um minuto de fé para voltar a dormir
A música que acompanhou/inspirou a criação deste poema é "A minha oração", do cantor André Valadão. Recomenda-se ler o poema ouvindo a canção, para melhor envolvimento com a obra. Segue link de um vídeo no youtube onde André Valadão interpreta a referida música: http://www.youtube.com/watch?v=Zn-wPjlj5vA
(Dos tempos)
Assisto à tarde partir e a noite chegar
Timidamente surge a primeira estrela
Vivaz, brilhante, queimando
Assisto à estrela colorir o céu
Vagueio em bruscos pensares
Eu costumava usar uma aliança
E me cobria de finura invejável
Agora me calo sem nada louvável
Agruras de tempos memoráveis
Agora cercam-me com tamanha fúria
O mar que cerca esta ilha é ácido
E eu não sei nadar para fugir
Austeras visitas a cada manhã que nasce
De apertos e solavancos impetuosos
É tão bonito o maquinário mental
Mas sua cura está a milhas de distância
Assisto ao sol sorrir, com a alma seca
O tanque se renova enquanto há prantos
E o ciclo de esvaziá-lo e enchê-lo me sufoca
Jazem enterrados em mim antigos encantos
(Das alianças)
Canto músicas que queimam o espírito
E cortam-me feito navalha cega
Vejo escorrer pelo nariz uma coriza traumática
Mas a febre é melhor do que a frieza da alma
Eu costumava usar uma aliança
Disso lembro-me de já ter dito
É que ela era tão excessivamente cara
Perdi-a num bueiro qualquer das desventuras
Algumas rimas lidas deitadas pelo chão
Molhando no café um pedaço de pão magro
Penduradas no varal estão as velhas vestes
Manchadas, todavia, encontram-se eternamente
Queria expressar algum tipo de desabafo
Desses que se extrai da alma angustiada
Sei lá, talvez 10.000 lágrimas
Mas deixar vazio pra sempre o reservatório
Eu costumava caminhar com gente
E me dispus a tal estado animalesco
Em que os próprios bichos de mim tem pena
Voam, rastejam, ocultam-se longe de meus vexames
Um dia isso há de ser ricamente colorido?
Não o sei, temo pela resposta a tal pergunta
Receio ter sido esquecido, todo esse tempo sofrido
Um poema forte, com tons sombrios e uma pegada de melancolia. Sinta, através destas palavras, o lamento de alguém que rejeitou o bem mais precioso que pode existir.
Assim que chegar o morrer
Eu quero vê-lo atravessando as paredes
Desse meu coração deserto
Qual destino é certo:
um túmulo reservado à solidão
Ah! Se outrora eu soubesse que eras o Cristo
Agora estaria vivo, e mais do que isto
Vida pulsaria em cada mover de minhas mãos
E seria capaz até de sonhar
De brincar, de plantar, de colher...
E tantos sorrisos enterrei, quando orgulhosamente
Guardei-me querendo ser são, não como os loucos tais
O menino chorou a noite inteira
As lembranças, as dores
Tudo que o machuca, que o assusta
Quanto custa?
Ele quer saber o preço do amor
E o coitado gira, gira, gira, não acha
algum pensamento que o satisfaça
que o faça ver luz e ouvir melodias
Mas sua vida está em trevas
Como as ervas, quão seco ele parece!
O menino chora sangue, enlouquece
O diabo maldito o enfraquece
Mas minhas orações irão alcançá-lo
Aguente, menino, o amor te salvará
Com Deus você está, Ele te consola
Está completamente perdido e cadavérico
Coração colérico! Deus te salvou
O prato é seco e a lágrima parou,
Amém, Senhor!